Sou um gajo estranho e ainda acredito no Pai
Natal... e que vivo num país que pode evoluir.
Ouvi ontem com atenção o presidente do PSD, na
esperança que por uma vez acabasse por ouvir um presidente de uma nação que o
elegeu democraticamente para representar todos os portugueses.
Mais uma vez acabei por ouvir um presidente
que em duas frases deu cabo de todos os argumentos que poderia ter para tomar a
decisão que ontem tomou. Da primeira, a de que existem partidos políticos que
não podem ser eleitos ou fazer parte de um governo... tal frase é tão
inconstitucional e antidemocrática que até faz tremer o Salgueiro Maia na cova.
A segunda é de que é função do presidente dar contas as instituições
financeiras...
Vamos tentar esclarecer isto... o Presidente
tem unicamente que prestar contas a uma entidade, o eleitor, essa espécie energúmena
que continua a insistir na ideia de levantar o cú do sofá ao domingo e ir lá
colocar uma cruzinha num papelinho.
Esse eleitor que tem uma mente complexa e que
tantos e tantos comentadores, políticos e jornalistas (e pseudo-estes-todos)
tentam compreender. Entre os que dizem que a direita ganhou porque o eleitorado
confia no actual PM, os que dizem que a esquerda ganhou porque somados os votos
são os que tem mais... e os que dizem que ninguém ganhou.
Friamente (e aviso já que não gosto do Portas)
quem ganhou as eleições foi a abstenção, e essa devia ser a primeira mensagem
que TODOS os partidos deviam ler, a de que não estão a fazer um bom trabalho e
que as pessoas acham que nem vale a pena exercer um direito conquistado numa
revolução contra um regime autoritário porque é tudo a mesma coisa. Depois, em
tantos comentadores e profissionais da TV, todos eles estão formatados a um
pensamento da europa do Sul, que vê as eleições desde sempre como um jogo de
bola onde há um vencedor e um vencido. Falam de programas eleitorais e de que o
eleitor escolheu este ou aquele... ULTIMA HORA... 90% dos eleitores nunca leu
ou viu um programa eleitoral na sua vida.
As eleições não elegem primeiros-ministros e ninguém
vota para um primeiro-ministro. As eleições servem para eleger deputados a uma
assembleia e aquilo que o eleitor deve esperar é que sejam capazes de
entendimentos para o superior interesse do país e não a criação de um enclave
partidário de facilitismos para os jotinhas e para os amigos do partido (e isto
existe desde 1975 em ambos os partidos). A justificação do presidente de que
sempre foi assim que se fez, que o partido com mais votos vê o seu líder
indigitado acontece porque o temerário eleitor nunca fez o que fez agora... pôs
a cruz noutro sitio e não nas maiorias. A pergunta que se coloca é... se o
Bloco, o PCP, ou um PNR tivessem mais votos do que PS ou PSD o presidente teria
o mesmo comportamento? Nomearia um nacionalista radical ou um comunista
convicto para Primeiro Ministro só porque sempre assim foi?
Sejamos realistas... nos países nórdicos temos
12 e mais forças politicas com assentos parlamentares e é um conjunto de
deputados que no seu entendimento que criam soluções de governo. É para isso
que o eleitor vota, para que um deputado (ainda mais com a farsa dos círculos
eleitorais) eleito pelo seu voto possa defender os seus valores e implementar
as suas ideias. Se isso tem que representar um entendimento e efectuar
cedências, então que o seja, desde que essas não venham ferir de morte os seus
valores principais.
Para fechar... o Paulo Portas (eu avisei que
não gosto do homem) criticar o António Costa por querer chegar ao poder é da
maior demagogia que existe. Foi ele o responsável por uma crise que custou
milhões ao país e que abanou a solidez da sua própria coligação apenas por um
lugar de vice...
Acho que perdemos ontem a oportunidade de nos
tornarmos politicamente mais evoluídos, capazes de perceber que a solidez
governativa não é a maioria pensar como nós... é a maioria ter capacidade para
ter as suas próprias ideias. Durante 4 anos a coligação PSD/CDS teve as suas
próprias ideias porque a soma dos seus deputados (coligados DEPOIS das
eleições) lhe deu esse direito. Ainda que o seu programa fosse muito diferente
do que tinham apresentado... tinham esse direito. Acima de tudo... mais do que inconformado
com a atitude de um homem que se diz Presidente de todos os portugueses, fiquei
triste com o meu país...